#2 Olhar(es) | 26.fev.21

#2 Olhar(es) | 26.fev.21

Share on facebook
Share on twitter
Share on email

INDICAÇÃO DA SEMANA // FILME


“O tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso”

Lançado há 20 anos, ‘Lavoura Arcaica‘ já estreou com uma aura de obra-prima, vide todas as críticas avassaladoramente positivas que o filme recebeu por onde passou.

Analisado agora, é um pouco triste perceber que a ambição do projeto e a forma única com que foi desenvolvido acabaram transformando o filme numa exceção dentro de um cenário cinematográfico que gosta tanto de se repetir.

Com roteiro adaptado pelo diretor Luiz Fernando Carvalho do livro clássico de Raduan Nassar (que era considerado infilmável), acompanhamos o retorno de um filho desgarrado para o seio de sua família Líbano-brasileira, acarretando no confronto com a figura rígida do pai, o carinho sufocante da mãe e os desejos incestuosos para com sua irmã.

O diretor alcançou o equilíbrio perfeito entre literatura e cinema, apoiado por um elenco em plena sintonia (com destaque para Raul Cortez, Selton Mello e Simone Spoladore), pela fantástica fotografia de Walter Carvalho e a bela trilha de Marco Antônio Guimarães.

Para alcançar essa sintonia que transborda da tela, toda a equipe se isolou em uma fazenda antes das filmagens, fazendo inúmeras oficinas e também tarefas cotidianas do universo dos personagens, principalmente no que diz respeito ao trabalho com a terra e os animais.

Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001) está disponível no YouTube Filmes e NOW.

Para entender um pouco mais sobre o processo de construção dos personagens, assista esse vídeo revelador presente no Vimeo do diretor Luiz Fernando Carvalho.

Veja algumas imagens do retiro pelo qual o elenco e a equipe passaram antes das filmagens (fonte)

Trailer Oficial


PLAYLIST DA SEMANA

De qual Caetano você mais gosta?

Certa vez, Caetano Veloso falou que a carreira na música só deu certo porque as coisas não andaram para ele no cinema. Apesar disso, o mestre da música brasileira cruzou com a Sétima Arte por diversas vezes, seja apenas com músicas em filmes ou como compositor de trilhas.

Importantes filmes brasileiros dos últimos anos contaram com a trilha sonora assinada por ele. Os sucessos “Lisbela e o Prisioneiro” com a grudenta e bela versão de “Você não me Ensinou a te Esquecer” e “Ó Pai Ó” foram feitas por ele. Ao lado de Milton Nascimento, o artista assinou a parte musical da comédia “O Coronel e o Lobisomem”. Antes disso, os diretores Leon Hirszman e Cacá Diegues, respectivamente, em “São Bernardo” e “Tieta”, tiveram o privilégio de ter Caetano como o responsável pela trilha.

O cinema brasileiro ficou pequeno para o talento do mestre da MPB. Pedro Almodóvar, por exemplo, se encantou com a delicadeza de Caetano e dedicou um trecho do clássico “Fale com Ela” para interpretação do baiano em “Cucurrucucu Paloma” – canção também utilizada por “Moonlight – Sob a Luz do Luar”. Por “Frida”, ele foi indicado ao Oscar em 2003 pela canção “Burn it Blue”. Veja a apresentação dele abaixo. (fonte: Cineset)


INDICAÇÃO DA SEMANA // LIVRO

Still do filme “O Livro dos Prazeres” de Marcela Lordy

Aproveitamos o lançamento próximo do filme ‘O Livro dos Prazeres‘, para indicar o livro no qual ele foi baseado.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres é o sexto romance da escritora Clarice Lispector, publicado em 1969.

O livro acompanha o relacionamento amoroso entre Loreley (Lóri), uma professora primária, e Ulisses, um professor de filosofia. A tensão entre os dois, que tem objetivos e desejos diferentes, leva a um processo de aprendizagem e de autodescoberta.

Já o filme, que passou na 44ª Mostra de São Paulo, traz o romance de Lispector para os dias de hoje. 

Na trama, Lóri é uma mulher solitária e melancólica que divide o tempo entre suas tarefas como professora de Ensino Fundamental e seus relacionamentos amorosos, que são sempre rápidos e superficiais. Em um acaso, ela conhece o argentino Ulisses, um renomado professor de filosofia, egocêntrico e provocador. Mesmo que Ulisses não entenda nada sobre mulheres, é com ele que Lóri aprenderá a amar e a enfrentar sua própria solidão.

Avaliações na Amazon


ASPAS OLHAR

“Não trato os personagens como coitadinhos. Ou como heróis. A distância justa é nem olhar de baixo pra cima, nem de cima pra baixo.”


CINEMA EM CASA

“Cinema nacional é só putaria.”

Essa é uma das frases mais usadas por quem quer justificar o seu descontentamento com a produção cinematográfica nacional, geralmente fruto do pouco conhecimento em relação ao cinema riquíssimo que produzimos por aqui.

Ela provavelmente faria mais sentido na época da Pornochanchada, termo que serviu para classificar um tipo de filme que começou a ser produzido no final dos anos 60 na região do Bairro da Luz, comumente chamada de Boca do Lixo, e que gozou de enorme sucesso comercial ao longo de toda a década de 70.

As comédias populares italianas foram uma das maiores influências do gênero, principalmente as de teor erótico.

Com o tempo, o termo Pornochanchada acabou sendo usado sem nenhum critério, para se referir a qualquer tipo de filme que fosse barato, mal acabado e/ou tivesse algum tipo de sacanagem.

Muitas vezes os títulos faziam trocadilhos com sucessos do cinema norte-americano da época, como ‘Nos Tempos da Vaselina‘ e ‘Banana Mecânica‘ e continham tramas sobre adultério, virgindade e conquistas amorosas, sempre focando na erotização do corpo feminino.

Apesar de ter uma espécie de primeira fase entre os anos 1969 e 1972, foi entre 72 e 1978 que o gênero ganhou espaço e se consolidou não apenas como uma enorme influência cultural, mas também como uma mina de ouro. Dentre as 25 maiores bilheterias entre 1970 e 1975, nove foram filmes da Pornochanchada.

Mas nem tudo eram flores. Além dos agentes de censura e das parcelas moralistas da sociedade, que sempre se esforçaram para boicotar o gênero, houve também o incômodo por parte das distribuidoras estadunidenses, que não aceitaram muito bem o enorme sucesso dos filmes e sua bocada cada vez maior nessa fatia de mercado, chegando a participar com 30% dos ingressos vendidos no país, algo inconcebível para o cinema nacional hoje em dia.

A partir dos anos 80, com fórmulas cada vez mais desgastadas e com a entrada dos filmes pornográficos norte-americanos no mercado brasileiro, foi chegando ao fim uma das fases mais emblemáticas do nosso cinema.


PARA FICAR DE OLHO

// Isa Lanave

(Foto – Dani Oliveira)

Em junho de 2019 eu estava caminhando pelas ruas de Montevidéu quando me deparo com uma exposição ao ar livre, sem paredes nem luzes especiais, simplesmente as imagens ali no meio da rua,  com as pessoas passando e o barulho cosmopolita da capital uruguaia.

A primeira foto que me chamou a atenção é essa logo abaixo, e faz parte do Projeto ‘Fátima’ da fotógrafa Isa Lanave, com quem tive o prazer de conversar numa manhã de quinta-feira.

Q&A

Em qual momento você percebeu que queria trabalhar com fotografia?

Para mim tem muito a ver com a faculdade. Eu entrei no curso de jornalismo porque gostava de escrever, mas logo no primeiro ano tive um curso de fotografia e fiquei apaixonada. Em seguida ganhei uma bolsa para estudar fotografia no México e quando voltei ao Brasil me chamaram para trabalhar num coletivo de fotografia de São Paulo, bem na época das manifestações contra e a favor do impeachment da Dilma. Através desse coletivo eu vendi algumas fotos para a Vice e percebi que era sim possível viver disso. Sinto ainda que a fotografia me ajudou a construir a forma como me expresso, a minha fala, principalmente quando comecei esse processo de registrar minha mãe, que acabou se transformando num projeto que levo até hoje.

Existe alguma relação entre o seu projeto ‘Fátima’ e o seu primeiro livro ‘Leve A Sério O Que Ela Diz’?

Totalmente, eu sinto que a ideia do livro veio de uma mesma base, que é buscar compreender como a minha mãe se sente. Quando eu era criança era muito comum ouvir das pessoas “não leve a sério o que ela diz”, “ela é louca”, frases que naquele momento poderiam até vir como uma forma de proteção em relação a mim, como se dissessem “é melhor não levar a sério do que ter que lidar”, mas hoje em dia eu percebo que essa não é a minha forma de lidar com as coisas. Se existe um problema, eu quero falar sobre ele e não fingir que ele não existe.

Com o filme ‘A Mesma Parte de um Homem’ foi a primeira vez que você trabalhou com cinema?

Não, eu venho flertando com o cinema desde a faculdade. O que me fascina é esse lance de expressão através da imagem, seja ela estática ou em movimento, então na faculdade a gente fez um documentário sobre a minha mãe e eu também trabalhei em alguns videoclipes e curtas metragens. ‘A Mesma Parte de um Homem’ é de fato o primeiro longa metragem em que estou envolvida desde o começo até o final, acompanhando todo esse processo.

Isa, para terminar, indica para a gente dois filmes que você gostou muito?

Eu gosto de filmes que me emocionam. Assim agora, me lembro de dois filmes recentes que vi na Netflix e que causaram uma sensação que ficou comigo: ‘A gente se vê ontem’ produzido pelo Spike Lee, e ‘Uma Noite de 12 Anos’, que retrata o período em que José Mujica ficou preso durante a ditadura militar no Uruguai, nos fazendo pensar na nossa própria história e de como não podemos deixar algumas coisas se repetirem.

  • Essa foto é da minha mãe em um momento de crise. Pra mim ela resume muito do que é ‘Fátima’: um olhar profundo pro lugar de onde eu vim. essa foto me inspira coragem.

Isa Lanave é uma artista visual paranaense de 26 anos, nascida na cidade de Curitiba, Brasil. Em seu trabalho investiga questões relacionadas à saúde mental e suas interseccionalidades, a partir de sua vivência como filha de uma mulher neurodiversa. Atua no mercado jornalístico como fotógrafa e também como diretora de fotografia. Em 2017, foi citada pela revista TIME como uma das 34 fotojornalistas a serem seguidas pelo mundo. Em 2018, foi uma das fotógrafas selecionadas para o 6th New York Portfolio Review, nos Estados Unidos. Em 2019, o projeto Fátima teve sua primeira exposição individual no Centro de Fotografia de Montevideo, no Uruguai e ficou na shortlist do Photography and Social Justice da Magnum Foundation. Em 2020, junto de Laís Melo e Mano Cappu foi selecionada como Grantee da National Geographic Society pelo COVID Emergency Grant para atuar como Diretora de Fotografia da série “Filmes-cartas para o futuro”. Isabella é formada em Comunicação Social – Jornalismo e está se especializando em Saúde Mental e Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.


CENAS OLHAR

Quantos filmes brasileiros você viu ano passado?
E quantos norte-americanos?

É sobre isso.

Zona Árida está disponível nas plataformas digitais. Assista!


Para encerrar, vamos de Nelson Rodrigues e a nossa eterna síndrome de vira-lata:

“O Brasil é muito impopular no Brasil.”


OUTROS POSTS

Política de Privacidade

Termos de uso

Vagas de Emprego

FIQUE POR DENTRO DE TODAS AS NOVIDADES DA OLHAR

TUDO CERTO!

Agradecemos a sua mensagem.

Caso precise de alguma outra informação, por favor entre em contato através das nossas redes sociais.

Para você que ama cinema.

Assine nossa newsletter quinzenal e receba conteúdos exclusivos.

TUDO CERTO!

Agradecemos o seu cadastro.

Agora você faz parte de um seleto grupo que recebe as nossas notícias em primeira mão!